Veja dores mais comuns para pro players de jogos mobile, FPS e MOBA

Fisioterapeuta de PRG, LOUD e Team Liquid revela queixas dos atletas e destaca importância da prevenção

Vitor Kenji quer, literalmente, tirar um peso das costas dos atletas de esportes eletrônicos. Fisioterapeuta do time de Free Fire da LOUD e da Prodigy (PRG), bem como de League of Legends da própria PRG e de Rainbow Six da Team Liquid, ele foi pioneiro ao incorporar sua profissão aos Esports, em 2016, e hoje é uma referência no assunto.

“Não é luxo, é necessidade. A equipe faz um investimento para ter aquele atleta e precisa dele à disposição. Se ele se ausenta por lesão, ela tem prejuízo”, resume, pragmático. Assim, Kenji tem defendido que toda equipe de alta performance conte com um time multidisciplinar.

Sua dedicação colheu frutos e atualmente ele disponibiliza um eBook sobre o tema e ainda agrega conteúdo em suas redes sociais. Em entrevista ao Rush Arena, Kenji falou sobre a necessidade de aliar o tratamento psicológico ao fisioterápico e até sobre como não tem mais tanto tempo para seu hobby preferido: jogar.

Lesões mais recorrentes nos Mobile

O desafio mais recente assumido por Vitor Kenji foi tratar os atletas de jogos mobile, febre entre os fãs, mas com potencial de estressar principalmente os polegares e o pescoço. “A região cervical fica curvada para frente quando a pessoa mexe no celular e isso pode gerar uma tensão enorme na musculatura do pescoço”, alerta.

Kenji ainda alerta sobre o estresse nos dedos das mãos. “Além da postura inadequada que os players de mobile geralmente ficam, existe outra questão que é a do dedo polegar, a principal ferramenta deles. Enquanto num MOBA existe grande fadiga no dedo indicador e médio, no mobile é no dedo polegar”, elucida.

Periféricos que emulam um joystick em celulares podem ajudar a minimizar o problema para jogadores casuais. A maioria das competições oficiais desse tipo de game, contudo, veta o uso de qualquer ferramenta, o que exige bastante dos polegares dos atletas.

Lesões mais recorrentes nos MOBA

Os Multiplayer Online Battle Arena (MOBA) costumam exigir reflexos rápidos dos dedos tanto no teclado quanto no mouse, o que tensiona toda a região do punho.

“No MOBA, o player está em constante movimento de clique, principalmente com o dedo indicador, para movimentar o campeão. Isso gera um ato repetitivo e intenso por um longo período. Os movimentos de punho são mais curtos e rápidos também, então é preciso fazer um trabalho nessa região”, especifica Kenji.

Um caso famoso e recente é do atirador Luís “Absolut”, atualmente no Flamengo. Ele perdeu boa parte da temporada de 2019 do Campeonato Brasileiro de LoL (CBLoL) por inflamação no tendão do punho, a famosa tendinite. Seu desfalque prejudicou seu time da época, a Team oNe, que acabou rebaixada.

Lesões mais recorrentes nos FPS

Os First Person Shooters (FPS), conforme Kenji, exigem movimentos mais amplos das mãos e podem tensionar uma região maior dos membros superiores. “O jogador precisa se movimentar em uma área visual maior, então mexe mais o cotovelo e os ombros. Mas os cliques não são constantes, costumam ser em momentos de explosão, só quando surgem alvos. Isso nos faz monitorar também bastante o antebraço”, detalha.

Um caso que ficou bem famoso foi do sueco Olof “olofmeister” (foto abaixo), que, em 2016, atuava pela fnatic e teve de perder um grande torneio em casa, a DreamHack Masters de Malmö por inflamações nos tendões.

Olofmeister em ação pela fnatic. Foto: DreamHack/Divulgação

Estresse exige cuidado especial

Kenji lembra que todo distúrbio psicológico produz impactos no corpo, o que reforça seu pleito para as comissões técnicas das equipes serem multidisciplinares.

“O estresse deixa a musculatura tensionada e vai gerar mais dor ao jogador. Eu trabalhei com um mental coach chamado Marcos Bernardo e estávamos sempre em constante conversa para atuar em prol do jogador. Ele falava que o treino não tinha sido bom e eu sugeria a gente trabalhar de outro jeito na sessão, às vezes ele também recomendava hipnose “, esclarece.

Como aprender a tratar pro players

Estudioso, Kenji passou a produzir o próprio conteúdo em suas redes sociais e a agregar conhecimentos da área entre colegas de profissão. O fisioterapeuta, com passagens também pela INTZ, Operation Kino, Flamengo e CNB, conta que, no início, sem muito referencial sobre como abordar o trabalho com os pro players, observou os parâmetros de tratamento para outras profissões que exigem bastante tempo sentado, como arquitetos.

“A partir daí foi um trabalho de adaptação em relação ao que eu observava no dia a dia com os atletas”, detalha, orgulhoso. Mais e mais profissionais de seu ramo tem buscado unir a velha paixão de infância com o sustento da vida adulta, e o fisioterapeuta se diz contente de ser tratado como referência.

Quando o assunto é a diversão, contudo, ele confessa que nem sempre arranja tempo. “Quem trabalha nos bastidores tem uma rotina diferente. Quanto mais você trabalha, menos joga”, conclui, bem humorado.

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