Como GTA mudou a indústria de games

Roteiro mais complexo, mapas cada vez maiores e interações trouxeram grandiosidade

Boa parte dos games tem um objetivo claro: vencer seu oponente, seja fazendo mais pontos ou o eliminando. Mas há duas décadas houve desenvolvimento das narrativas e o que antes costumava ser primitivo – muito por conta das limitações tecnológicas – se tornou mais sofisticado e cheio de nuances. Um dos pioneiros em produções grandiosas foi, definitivamente, a Rockstar, com o sucesso estrondoso da franquia Grand Theft Auto, lançada em 1997 para PC, PSOne e Game Boy Color. 

Como mostra o livro ‘O Grande Fora da Lei’, de David Kushner, os games se inseriram na indústria do entretenimento graças ao GTA. A preocupação com um bom enredo foi, desde sempre, bastante valorizada pelos irmãos Sam e Dan Houser, criadores da franquia, e pautou o segmento dos games. Assim, além de proporcionar boa jogabilidade, os jogadores se viam inseridos em universos bem construídos e com personagens complexos. Em resumo, títulos de vídeo game viraram peças audiovisuais.

GTA 2 fez bastante sucesso no PSOne Foto: Reprodução

O que começou como um jogo aparentemente simples, com visão aérea e gráficos simples em comparação a jogos similares da época, como Driver, chegou a patamares incríveis com o passar dos anos. Mesmo as primeiras edições, Grand Theft Auto e Grand Theft Auto II (imagem acima), possuíam gangues definidas e motivos para que o jogador executasse ações como roubo de carros, corridas e assassinatos.

Tecnologia ajudou a Rockstar

Com a popularização da visão em terceira pessoa a coisa só melhorou. Os gráficos passaram ao 3D e as cut scenes inseriam o player ainda mais na narrativa. Grand Theft Auto III trouxe de volta o protagonista Claude Speed (abaixo), apresentado em GTA 2, que era mudo, ao contrário de todos os outros personagens, e se envolvia com as máfias japonesa e italiana, sempre fazendo missões em alta velocidade pelas vias de Liberty City – inspirada em em Nova York -, com violência e tráfico de drogas.

Claude entra mudo e sai calado, mas arrepia Liberty City (Reprodução)

Ainda no mesmo universo, GTA: Vice City foi um dos títulos mais carismáticos. A ambientação similar a Miami nos anos 1980 teve cores vivas e o carisma dos personagens fez toda a diferença. Aeronaves e barcos traziam ainda mais possibilidades (apesar de Tommy Vercetti, o protagonista, não saber nadar, o que se tornou motivo de investigação por parte dos fãs).

A história de Carl Johnson, o CJ, em San Andreas, teve nuances ainda mais elaboradas. O membro da Grove Street teve que voltar à terra natal e administrar os negócios em outras várias cidades, mas as principais são San Fierro e Las Venturas, baseadas em São Francisco e Las Vegas.

CJ e Big Smoke eram dois gângsters da Grove Street (Reprodução)

Um mapa tão grande como nunca antes foi visto deixava os players ainda mais intrigados com os mistérios existentes no jogo. Era possível customizar carros, arranjar namoradas, engordar, ficar bombado, ser dono de negócios, trabalhar como cafetão, entre muitas outras tarefas.

Vale lembrar que GTA San Andreas se notabilizou por modificações bizarras. Como o Brasil é conhecido como um país bastante criativo, nós oferecemos ao mundo obras maravilhosas como o caminhão das Casas Bahia e a presença da ex-presidente Dilma Rousseff em Los Santos. Esse tipo de coisa me lembra porque o Brasil é fantástico.

Niko teve a missão de protagonizar o primeiro GTA da nova geração (Reprodução)

Quatro anos depois de San Andreas veio o polêmico GTA IV, que conta a história do imigrante do leste europeu Niko Bellic (acima). O jogo volta a Liberty City, mas com gráficos mais realistas, porém sombrios como todo o enredo. Foram introduzidas escolhas aos jogadores. Em determinadas missões você recebe a opção de poupar a vida de inimigos e isso traz reflexos durante o desenvolvimento da trama. É mais um título cheio de easter eggs e até mesmo websites são mostrados. Fãs se digladiam em fóruns na internet sobre essa ser a edição mais monótona da franquia.

O auge veio

Sob a mesma engine gráfica, chegou GTA V, edição que consolidou a vocação da Rockstar de quebrar recordes. Apenas em 2013, ano de lançamento, vendeu 32,5 milhões de cópias para PS3 e Xbox 360. Mais tarde vieram as versões para PS4, Xbox One e PC. O single player conta com uma inédita história de três protagonistas: Michael de Santa, Trevor Phillips e Franklin Clinton. Desta vez, o estado de San Andreas é mostrado com Los Santos como a única metrópole (o que não torna o mapa menor).

Trevor é um dos protagonistas de GTA V, um dos games mais rentáveis da história (Reprodução)

A Rockstar prolongou a vida útil do game com um universo online bastante interessante, milhares de veículos disponíveis e missões cooperativas foram acrescentadas. Mesmo depois de seis anos de lançamento, o jogo continua com uma fan base considerável e já alcançou mais de 100 milhões de vendas. Toda a franquia Grand Theft Auto chegou a 240 milhões de cópias vendidas, a terceira maior vendagem da história.

A franquia também teve versões não canônicas bastante interessantes, como Liberty City Stories, Ballad of Gay Tony, entre outros títulos que, de alguma forma, têm narrativas em comum com os títulos principais.

Por GTA é tão grandioso?

A cada nova edição, GTA fica mais complexo e cheio de possibilidades. Mesmo na época em que os gráficos não ajudavam e existia uma clara limitação tecnológica, a Rockstar conseguiu se superar com enredos interessantes e elementos inovadores.

GTA rompeu a barreira dos games. Quem não se interessava por vídeo game acabou sendo atraído a conferiro motivo de se falar tanto nesses títulos. Muitos sequer completam missões, mas se empolgam com a possibilidade de afrontar a polícia e ganhar mais e mais níveis de procurado.

A Rockstar elevou o padrão da indústria de games de uma forma tão profunda, que a concorrência teve que se adaptar a um novo momento: quando jogos deixaram de ser só jogos. É por isso que os próximos lançamentos geram tanta expectativa.