Analista de CS:GO que flagrou técnicos usando bugs trabalhou de graça

Homem que desvendou uma realidade suja do jogo fez todo o serviço de forma voluntária

O polonês Michal Slowinski, árbitro e analista de Esports, abriu a caixa de pandora do CS:GO internacional na última segunda-feira (31/09/2020). Ele revelou que vários treinadores do cenário profissional abusaram, entre este e o último ano, de um bug do observador para ter vantagens indevidas durante algumas partidas, incluindo Ricardo “dead”, da MIBR, e Nicholas “Guerri”, da FURIA. Segundo ele, foram analisados mais de 1,5 mil partidas desde 21 de agosto e outras 1 mil seriam analisadas nos próximos dias. Mesmo com todo esse trabalho, nenhuma organizadora de campeonatos beneficiados pela apuração dele pagou um centavo pelos serviços.

A revelação foi feita por alguns usuários do Twitter, onde o caso todo se desenrolou primeiro, e confirmada por figuras como o britânico Duncan “Thorin”, comentarista e diretor criativo da liga FLASHPOINT, e o caster australiano Chad “SPUNJ”. Segundo eles, as horas de análise de gameplay por Michal e seu amigo Steve Dudenhoeffer, um técnico de TI, foram feitas em caráter voluntário sem qualquer previsão de remuneração. Essa situação motivou, inclusive, a criação de uma vaquinha online para quem quiser oferecer algum apoio financeiro.

“É na verdade absurdo para mim que as Organizadoras de Campeonato e a Valve aparentem pensar que Michal pode basicamente fazer o trabalho deles para eles e não haver razão para recompensá-lo financeiramente por seus esforços. Essa indústria está podre.”

Thorin, no Twitter

A situação é tão surreal, ainda mais por beneficiar a manutenção da integridade competitiva de um dos jogos mais relevantes do mundo e auxiliar diversas ligas mantidas por empresas milionárias, que o vice-presidente de produtos da ESL, Ulrich Schulze, se manifestou após ser provocado. Na manhã desta terça-feira (3/09/2020), ele publicou em seu perfil oficial no Twitter que já entrou em contato com Michal para oferecer compensação pelos serviços prestados. A ESL promoveu o Road to Rio, em que dead teria abusado do ‘bug’ em uma partida contra os também brasileiros da Yeah Gaming.

Quem foi pego?

As revelações de Michal respingaram em todo o cenário global, inclusive no brasileiro. Depois de técnicos de equipes internacionais como Alexander “MechanoGun”, da russa Hard Legion, e Nicolai “HUNDEN”, da dinamarquesa Heroic, terem sido pegos e afastados, a analista (também voluntária) Jéssica Kersia fez apurações na América do Sul e também encontrou abusos do bug.

O ex-coach da Team Reapers, Flávio “exp”, foi pego usando o bug em um jogo da Aorus League diante da Neverest, porém Jéssica considera o vídeo inconclusivo sobre ele ter se aproveitado ou não e o próprio se defendeu nas redes. A Neverest, por sua vez, teve seu ex-treinador, Arthur “prd”, atualmente na RED Canids, flagrado por um software que identifica o abuso durante um duelo diante da SWS Gaming. Houve pelo menos um caso relatado por Jéssica no cenário argentino, envolvendo o hermano Rodrigo “dinamo”, quando ele atuava pela Furious Gaming, no fim de 2019.

Em contato com a Rush Arena, Jéssica contou que, assim como Michal, fez as análises por conta própria por gostar muito de CS:GO e ser, ela própria, uma jogadora. Segundo ela, a repercussão do banimento de dead, da MIBR, e a recusa da ESL em divulgar os momentos em que ele teria trapaceado serviram de motivação.

“Eu resolvi investigar e descobri como assistir à POV. Depois divulguei e as pessoas acabaram gostando. Pediram para dar uma olhada nos times brasileiros, então eu comecei a fazer no meu tempo livre. Não imaginava as proporções que isso ia tomar pra ser sincera”, disse Jéssica

A Rush Arena também tentou contato com Michal, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. Com os trabalhos de gente como Michal e Jéssica outros casos devem ir à tona e mais repercussões devem ser sentidas no universo competitivo do CS:GO. As próximas semanas devem ser agitadas.